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Em 2023 estive na residência W, na cidade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. A cidade, que teve um de seus primeiros nomes sendo entre-rios, me reforçou a busca por pensar e criar a partir (e com) esse não-lugar, que é também em si um lugar entre. Conheci o couro reconstituído nas andanças pelo comércio da cidade. Logo me interessei pelo material que mistura sobras de fibras vegetais e animais, prensadas numa espécie de pergaminho ou numa nova pele que é também um pouco da pele anterior. Penso o quanto há dos hibridismos entre gêneros e espécies, também no suporte dos trabalhos que fiz a partir de lá. Neste couro tracei rotas de fuga e pintei encontros de seres, e também comigo mesma e com familiares. Autorretrato (in) familiar (2024) e Gêmeos (nós pegamos) (2024), são pra mim aproximações-homenagens a alguns trabalhos do Tunga e de forma mais íntima uma conexão ritualística com minha irmã, no primeiro caso, e um duplo, no segundo. Em Alambique (cabeça, coração e cauda) (2023), retomo uma experimentação monocromática em carvão e guache — técnica que elaborava também com as crianças em sala de aula. A faço a partir de visitas ao alambique de uma cidade vizinha. Estas saídas, passeios e explorações me fizeram também experimentar a reorganização das coisas do mundo. Como a criança que encaixa e desencaixa para descobrir como as coisas são formadas. Como alguém que vive e trabalha acompanhada de uma experiência—ornitorrinco. As Fadas e Casa de fadas (2023) são exemplos desse pensamento e criação. E, de algum modo, estão influenciadas pelas mitologias que conheci um ano antes do outro lado do oceano, e pelas histórias que ouvi desde pequena, com seus desejos de escape e existências outras.

sussurro para quem soa

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