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No fim daquele mesmo ano, mantendo esses processos que me atravessam num fazer em estado criança, como alguém que brinca com partes que se encaixam ou desencaixam, ancoro em Itaparica, Bahia, para uma residência no Instituto Sacatar. Ao chegar na ilha, entendi que a maré seria uma parceira importante para a construção de uma coleção constelar de seres que me interessavam. A partir da imaginação de uma ilha flutuante que se relaciona com o mundo das coisas num deslizar fluído, os processos de aleatoriedade, sincronicidade e serendipidade se tornaram fundamentais para estabelecer os acasos dos encontros fortuitos e instigar pensar em outras formas de existência permeadas pelas águas desta porção de mundo. Entendo-as diretamente relacionadas às muitas formas de vida possíveis de crescer em coletividade. Corpos que aprendem a si a partir do toque no chão, em sintonia com a força de como as coisas são formadas. Esses elementos regenerativos, multiespecíficos, coletivos, cooperativos, mutualísticos, foram me interessando a medida em que vivia partes, histórias e pessoas da ilha. Para mim, uma ilha flutuante é em alguma medida, uma possível resposta às catástrofes ambientais daquilo que vem sendo chamado como fim de mundo. Flutuar aqui é poder deslizar, fazer parentelas e se relacionar com outras formas de vida quando tudo inundar. Pensemos que um desses mundos que precisa acabar é o mundo colonizado criado a partir do ponto de vista único e hegemônico do homem-adulto-cis-hetero-branco-ocidental. Por isso, a importância e o desejo de apertar mãos mais que humanas, e considerar a fronteira, o ambíguo e o estranho como espaço possível de imaginação.

Quando penso a criança-bicho, criança-planta, criança-fungo, ou qualquer outro hibridismo, sugiro considerar que este ser aprende com e por outro seres. Seja nas visitas em sonhos noturnos, seja nas fendas do que se pode criar com a natureza. Enfiar, desgastar, montar, cobrir, apertar, diluir. Procedimentos que me ensinam também a medida em que os executo. Especificamente em Flor de dendê (2023) me interesso pela característica híbrida da flor dessa planta — que é masculina e feminina ao mesmo tempo, variando conforme as florações. Então usei o cacho cobrindo meu rosto não só para borrar a identidade, mas também como referência aos filás usados nas vestimentas de alguns Orixás, principalmente os femininos. Dessas e tantas relações multiespecíficas, pretendo tensionar e inverter as (des)ordens da criação, tirando-a das mãos humanas e pensando-a sob especificidades mais-que-humanas. Como seria ser criada por flores? Como os rios moldariam gentes? Como uma semente germina uma pessoa? Pode a pedra sonhar?

De cara com o mangue e a maré, montei meu ateliê, e durante meu fazer na ilha pude experimentar, num percurso desviado, em travessia, rico em processos metamórficos, simbióticos e cooperativos, a criação de criaturas que nos contam de suas existências ancestrais e regenerativas e apontam em nós as nossas características estranhas— queerificadas, que são mistério, potência, indisciplina e afeto. Elas apareceram a partir de coletas que a maré me trazia e que eu ia organizando pelo espaço de trabalho. Esses itens eram, em alguns momentos, usados para fotografias (Barroco, Caracol, Ilha flutuante e Cerca de Pedras) e em outros trabalhos, pintados em composição e recombinações em aquarela (Fantasia, Colônia e Posta-restante). Também busquei experimentar extrair do urucum a tinta para fazer imagens que me apareceram em visitas às matas e parques da ilha (Visita Noturna). E registrar desenhos que a própria água fazia na areia (desenho-maré). Pude também, ao final da residência, fazer-com as crianças da ONG Ilha das Crianças, uma oficina-expedição de invenções e fabulações de criaturas, em desenho e pintura, a partir das descobertas no quintal da escola.

sussurro para quem soa

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