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Quando chego em Portugal, em agosto de 2022, para duas residências, me deparo com assuntos que me atravessavam do lado de cá do mar. Na primeira, no norte do país, pelas casualidades do destino, vivi exatamente a época de um calendário de festas, procissões, e que tinham a tradição da máscara e das fantasias em suas comemorações. Pude visitar o Museu Ibérico da Máscara e do Traje e aprender sobre as tradições das esculturas em madeira para cobrir os rostos nestas festividades. Eu que vinha pensando a infância como potência de desejo e criação e as fantasias como escape e legitimação de outras existências, acolhi então estes seres e, para além de um registro desta ou daquela festa, me propus continuar a olhar para um modo de existência, brincadeira e invenção que se dá na espontaneidade, no infraordinário, entre folguedos. Fui pensando e descobrindo junto de ideias como a da criança trocada — criatura, que pode ser filho de um gnomo ou fada, e que é trocada por uma criança humana. Ou mesmo com as mitologias do norte do país e as figuras das Janas, que são espíritos, uma espécie de fadas do folclore popular português. Deixando que isso me atravessasse também junto das leituras que fazia antes de dormir, dos sonhos que tinha a cada noite e também jogando de modo oracular com o tarô. Neste jogo de cartas, me interessava ali pensar a figura do valete, que é chamado também de pajem e/ou princesa, o que reforçava, para mim, sua ambiguidade de gênero e sua criancidade. Posteriormente, sem me distanciar das festividades, das máscaras e desfiles como potência de existências concomitantes de diferentes ordens do visível, estive numa fábrica de materiais de desenho. E então, pude experimentar a massa de grafite como material escultórico. E diferentes lápis, carvões e gizes, sobre outras gramatura e texturas de papeis. Percebo que ao pintar sobre altas gramaturas, por exemplo 600g, coisa que não havia feito aqui no Brasil, houve um desejo de retorno para a pintura. Estava usando a aquarela e misturando guache e acrílica, e assim, ganhando mais corpo na materialidade da tinta. Isso fica mais evidente, quando retorno pra cá e retomo a pintura sobre tela com acrílica e óleo

sussurro para quem soa

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